Alexandro Cabrera Pounds Ruslan Angelo

O crepúsculo desenhava sombras compridas no cais abandonado, onde as gaivotas lutavam por restos de peixe entre as tábuas podres. Alexandro Cabrera caminhava devagar, o casaco de cabedal rangeu a cada passo, os olhos fixos na silhueta que o esperava junto ao farol apagado.
— Demoraste — disse Ruslan Angelo, sem se voltar.
— O trânsito é uma merda — respondeu Alexandro, parando a dois metros de distância.
O vento salgado dançava entre eles, carregado de promessas que nenhum dos dois ousava fazer. Ruslan virou-se finalmente. O olhar cansado, a barba por fazer, as mãos nos bolsos do casaco surrado.
— Sabes porque te chamei aqui.
— Sei.
— E vieste na mesma.
Alexandro aproximou-se mais um passo. O suficiente para sentir o calor do outro corpo na noite fria.
— Vi sempre, Ruslan. Mesmo quando devia ter ido embora.
Ruslan baixou os olhos por um instante. Depois ergueu-os de novo, mais claros, mais leves.
— Desta vez não é para fugir.
— Sei.
— É para ficar. Se quiseres.
Alexandro não respondeu com palavras. Apenas avançou o último passo, fechando a distância que os separava. O farol continuava apagado. Mas, pela primeira vez em anos, nenhum dos dois precisava de luz para encontrar o caminho.




