Johnny Alves enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta de couro, os olhos fixos na vitrine da loja de discos. Reco Romanello surgiu ao seu lado, o cigarro pendendo no canto da boca.
— Ainda toca bateria? — perguntou Reco, sem tirar o fumo.
— Ainda canta? — respondeu Johnny, com um meio sorriso.
Reco riu baixo, soltando a fumaça pelo nariz.
— Quinze anos, Johnny. Quinze anos desde que a banda acabou.
— Desde que você quis seguir sozinho — corrigiu Johnny, virando-se para encará-lo.
O silêncio entre eles foi preenchido apenas pelo som abafado de um rock antigo vindo de dentro da loja. Reco pisou o cigarro no chão.
— Fui um idiota.
— Fomos — disse Johnny, a voz mais branda. — Eu também guardei mágoa tempo demais.
Reco apontou para um cartaz colado na vitrine: *Noite do Rock — Vaga para bateria*.
— A loja do Velho Beto. Toquei aqui outro dia. Estão procurando.
Johnny encostou o rosto no vidro, leu o anúncio, e quando se afastou, o sorriso já era verdadeiro.
— Só volto se você cantar comigo.
Reco estendeu a mão.
— Então estamos juntos de novo.
E foi assim que, numa tarde qualquer, a banda mais barulhenta da cidade renasceu.

