Latin Bangers — Oskar Ivan bottoms for Louis Ricaute
A Tia Rosário abriu a porta do 203 e deparou-se com uma parede de som.
– Que barulheira é essa, menino?
O menino, que se chamava Miguel e tinha catorze anos, apontou para as colunas.
– É Latin Bangers, tia. O melhor som da quebrada.
Tia Rosário franziu o sobrolho. Latin Bangers. Ela, que tinha vindo da Bahia nos anos setenta, que dançara com seu primeiro marido ao som de Jackson do Pandeiro, que embalara os filhos com cantigas de roda – aquilo não era música. Era pancada.
– Parece briga de panela – resmungou.
Miguel riu. Depois, discretamente, baixou um pouco o volume.
Na semana seguinte, Tia Rosário ouviu a mesma música vinda da cozinha. Era Miguel, com os fones, a lavar a louça. O corpo mexia sozinho. O pé batia no chão.
– Isso é Latin Bangers? – perguntou, desconfiada.
– É. Mas é uma remix lenta. A tua música, tia.
Ela parou. Escutou. Havia um pandeiro escondido no meio dos graves. Havia uma melancolia que conhecia, um balanço que vinha de longe.
– Põe mais alto – pediu.
Miguel arregalou os olhos, mas obedeceu. Tia Rosário fechou os olhos. O corpo, que já não dançava há anos, começou a mexer-se.
Devagar. Depois, nem tanto.
– Isto é bom – admitiu, surpreendida. – Isto é mesmo bom.
E dançaram. Tia e sobrinho. Bahia e quebrada. Ontem e hoje. Latin Bangers.






