Jayell – Um macho dotado fudeu muito esse lek rabudo

O vento balançava as cortinas do pequeno apartamento. Jayell ajustou os fones de ouvido pela terceira vez, tentando encontrar a música certa para a tarde cinzenta.
Foi quando a nota do piano entrou pela janela.
Não era gravação. Era real, viva, escorrendo do andar de cima como água fresca. Jayell prendeu a respiração. Alguém ali também buscava abrigo na música.
No dia seguinte, subiu. Desculpa esfarrapada: açúcar emprestado. A porta abriu e um sorriso desfez todas as palavras ensaiadas.
— Você ouviu? — ele perguntou.
Ela apenas assentiu.
Ele se chamava Miguel. Toda tarde, por semanas, ele tocava. Ela ouvia. Nada além disso. Até que um dia, entre uma nota e outra, ele parou. O silêncio doeu mais do que Jayell esperava.
Então ouviu a batida na porta.
Miguel estava ali, sem piano, sem desculpas.
— Cansei de tocar sozinho — disse. — Quer dueto?
Jayell sorriu. Pegou sua flauta, esquecida num canto, e soprou a primeira nota. A música que nasceu ali não precisava de ensaio. Apenas de dois corações no mesmo compasso.






