Arno Antino & Raj
Arno Antino entregava cartas no bairro há vinte anos. Conhecia cada cachorro, cada portão, cada solidão.
Raj era novo na vizinhança. Tinha um sorriso largo e uma bicicleta amarela. Arno via ele passar toda manhã, acenava, seguia seu caminho.
Numa terça-feira, Raj apareceu no meio da rota.
“Perdi minha carteira. Você viu?”
Arno negou. Mas naquela noite, revirou a bolsa velha e encontrou, junto com as cartas, uma identidade com nome e endereço estrangeiros.
No dia seguinte, entregou pessoalmente.
“Sua carteira.”
Raj abriu um sorriso. “Você salvou minha vida.”
“Salvei nada. Só fiz meu trabalho.”
Mas Raj não deixou por menos. No sábado, apareceu na porta de Arno com dois pratos de comida tailandesa.
“Pra te pagar.”
Comeram no degrau, falando de tudo e de nada. Arno aprendeu que Raj cozinhava bem, ria alto e morria de medo de cachorro.
Na semana seguinte, Raj apareceu de novo. E na outra.
Até que Arno, que passou vinte anos entregando histórias alheias, percebeu que finalmente tinha a sua própria.
E descobriu que amor, às vezes, chega como carteira perdida: a gente nem espera, mas quando encontra, muda a rota inteira.




