Marreta & Alejo Espina
Marreta tinha mãos de cravar pregos e um coração cheio de silêncios. Alejo Espina, recém-chegado à obra, carregava uma viola e um jeito de quem olha o mundo pelas frestas.
Ela martelava estruturas enquanto ele, nos intervalos, dedilhava canções que falavam de horizontes. Marreta ouvia escondida, atrás das pilhas de tijolos.
Um dia, uma viga cedeu. O grito dela foi mais rápido que o pensamento. Alejo, que passava abaixo, nem viu o perigo. Sentiu apenas o empurrão que o jogou para o lado e o baque surdo de um corpo caindo junto com o ferro.
Marreta ficou no chão, o braço sangrando. Alejo ajoelhou-se, os olhos cheios de susto e gratidão.
— Por que arriscou a vida por mim? — perguntou, a voz partida.
Ela tentou sorrir, apesar da dor.
— Porque música boa não pode parar de tocar.
Na semana seguinte, ele voltou ao trabalho. No bolso da camisa, um papel dobrado. Ela leu no intervalo: “Quero passar a vida ouvindo você me salvar”. E, pela primeira vez, Marreta deixou o silêncio de lado.




