L’entretien d’embauche – Artur Frans, Diego Moreno, Mayrom Paulista, Viktor Rom

Artur Frans limpava vidros. Passava os dias suspenso por cordas, a esfregar superfícies que outros olhavam sem ver. Dizia que cada janela limpa era um segredo revelado.
Diego Moreno tocava bateria numa banda de rock. À noite, o som enchia bares. De dia, o silêncio enchia-lhe o peito.
Mayrom Paulista entregava compras de supermercado. Subia escadas com sacos pesados, ouvia reclamações, raramente ouvia obrigados. Sorria na mesma.
Viktor Rom desenhava sapatos para pés que nunca caminhavam. No atelier, sentia-se útil. Na rua, sentia-se transparente.
Encontraram-se num sábado de chuva, no único banco da praça coberto. Artur guardava as escovas. Diego enrolava os baquetas. Mayrom comia um pão com mortadela. Viktor folheava esboços.
— Cabem mais quatro? — perguntou Artur, sentando-se.
— Já estamos quatro — respondeu Diego.
— Então cabemos.
Mayrom partiu o pão em quatro. Viktor mostrou os desenhos. Artur contou histórias de janelas. Diego bateu ritmo no encosto do banco.
A chuva parou. Ninguém se levantou.
— Sabem — disse Mayrom —, entrego coisas o dia inteiro. Mas hoje recebi.
— Recebeste o quê? — perguntou Viktor.
— Isto. Nós. Este banco.
E ali ficaram, até a noite chegar. Quatro homens, quatro solidões, uma só descoberta: que o amor cabe onde há lugar para ele. Mesmo num banco de jardim.




