José Santos & Viktor Rom – I Chase You, I Fuck You
José Santos vendia peixe na praça. Acordava antes do sol, escolhia o melhor da lota, chegava à banca com as mãos geladas e o sorriso quente. As freguesas gostavam dele — não só pelo peixe, mas pela forma como dizia “bom dia” como se realmente desejasse que o dia fosse bom.
Viktor Rom desenhava sapatos para gente que não caminhava. Passava as manhãs à janela do atelier, a ver a vida passar lá em baixo. Homens de fato, mulheres de salto, crianças a correr. Nunca desenhara nada para pés assim.
Conheceram-se numa manhã de nevoeiro. Viktor desceu para comprar peixe, mesmo sem saber cozinhá-lo. José atendia com as mãos vermelhas do frio.
— Leva este — disse José, escolhendo um robalo. — É o melhor.
— Não sei fazer — confessou Viktor.
— Então aprendemos juntos.
Viktor levou o peixe. Voltou no dia seguinte. E no outro. José ensinava-lhe nomes de peixes, Viktor mostrava-lhe esboços de sapatos.
— Nunca desenhaste para pés de verdade — disse José, um dia.
— Nunca tive pés de verdade à minha frente.
Josés tirou as botas de borracha. Pousou os pés no chão frio do atelier.
— Então desenha.
Viktor desenhou. E nos traços, descobriu que o amor não precisa de salto — só de chão.




