Rhyheim’s Flip Fuck with Markin & Luca

Markin afinava guitarras para músicos que nunca chegavam a ser famosos. Passava os dias em estúdios poeirentos, a apertar tarraxas, a escutar cordas queixarem-se. Dizia que cada guitarra tinha uma alma e que a sua missão era pô-la a cantar.
Luca restaurava livros antigos. Sentado à mesa de madeira, com luvas brancas e paciência de ourives, devolvia palavras ao mundo. Gostava especialmente dos livros que ninguém lia — dedicava-lhes um cuidado extra, como quem acarinha um animal esquecido.
Conheceram-se num alfarrabista do Bairro Alto. Luca trabalhava num exemplário de Camões com folhas tão frágeis que pareciam asas. Markin entrou à procura de partituras antigas.
— Cuidado — avisou Luca, sem levantar os olhos. — Isto desfaz-se se respirarmos muito perto.
Markin aproximou-se devagar. Não para ver o livro, mas para ver quem o tratava com tanta ternura.
— Também és assim com as pessoas? — perguntou.
Luca levantou os olhos. Viu um homem magro, de mãos grandes e olhar doce.
— Depende — respondeu. — Se não respirarem muito perto.
Markin sorriu.
— Posso tentar não respirar.
E não respiraram. Durante semanas, encontraram-se no silêncio da livraria, entre páginas resgatadas e guitarras mudas. Até que um dia, Luca fechou um livro e disse:
— Acho que este já está restaurado.
— E nós? — perguntou Markin.
Luca tirou as luvas. Segurou as mãos dele.
— Nós nunca estivemos partidos. Só à espera de alguém que nos lesse com cuidado.




