Adam Gray & Agayredhead

Adam Gray trabalhava no último andar, programando mundos que nunca visitava. Passava os dias a contar números e as noites a evitá-los.
Ela apareceu no elevador numa terça-feira. Cabelo tão vermelho que parecia arder contra o cinzento das paredes. Adam fingiu ler o telemóvel. Ela assobiava uma canção que ele não conhecia, mas que ficou presa na sua cabeça o dia inteiro.
Na quarta, ela trazia um livro. Na quinta, um guarda-chuva amarelo num dia de sol. Na sexta, Adam perdeu o piso trinta e quatro porque ela sorriu ao entrar.
— Sobes sempre até ao fim? — perguntou ela, no vigésimo sétimo andar.
— Desço sempre até ao início — respondeu ele, sem perceber bem o que dizia.
Ela riu. O cabelo vermelho dançou.
— Eu chamo-me Agayredhead. É o meu nome todo, num só fôlego.
— Adam — disse ele. — Só Adam.
No rés-do-chão, ninguém saiu. O elevador fechou as portas e subiu outra vez.
— Sabes — disse ela, enquanto os números voltavam a subir —, acho que podemos subir e descer a vida inteira juntos. Se quiseres.
Adam olhou para o reflexo dos dois no aço da porta.
— Nunca quis ficar em nenhum andar — respondeu. — Até agora.




