Dmitry Osten and Gabriel Ryder fuck – Passing By
Na cidade portuária de Bremerhaven, onde o tempo parecia ter sido lavado pelo sal e preservado no âmbar da nostalgia, dois homens viviam em extremos opostos da escala do tempo.
**Dmitry Osten** era um relojoeiro. Não um simples reparador, mas um artesão da **”Osten & Sohn**”, uma loja escura e silenciosa que cheirava a óleo de rícino, madeira envernizada e pó de séculos. Seu mundo era medido em tiques minúsculos, em engrenagens que se encaixavam com precisão matemática, no peso perfeito de um pêndulo. Ele restaurava cronômetros de navios, relógios de bolso com retratos esmaecidos e carrilhões que marcavam a hora para gerações esquecidas. Dmitry acreditava que tudo de valor exigia paciência, cuidado meticuloso e poderia, eventualmente, ser consertado. Sua própria vida era um mecanismo de precisão solitária, onde cada movimento era previsível e silencioso.
**Gabriel Ryder** era um piloto de carga. Trabalhava para uma companhia aérea de frete que operava aviões antigos, os “cavalos de aço” que cruzavam o Atlântico Norte com cargas urgentes e perecíveis. Seu mundo era de horários impossíveis, de pistas iluminadas na escuridão, de mapas meteorológicos e da pressão constante contra o relógio. Ele vivia no tempo macro: fusos horários, horas de voo, prazos de entrega. Conhecia a sensação de ver o sol nascer duas vezes no mesmo dia e a solidão específica das cabines à noite. Para Gabriel, o tempo era um inimigo a ser derrotado, uma fronteira a ser cruzada. Ele não consertava coisas; ele as movia, rapidamente, antes que estragassem.
Seus caminhos se cruzaram por causa de um objeto fora do tempo. Gabriel herdou de um tio um relógio de aviador, um **Breguet Type XX** dos anos 50, complicado e magnífico, que parara de funcionar décadas antes. Um colega, vendo sua frustração com o pedaço de metal inerte, disse: “Leve ao russo. O da loja escura perto do cais velho.”
Gabriel entrou na **Osten & Sohn** como um furacão, trazendo consigo o cheiro de café de máquina e ar gelado da pista. Dmitry levantou os olhos de sua lupa, perturbado pela corrente de ar que agitou os papéis em sua bancada.
“Precisa de conserto. Para ontem”, disse Gabriel, colocando o relógio no veludo verde.
Dmitry pegou o objeto com movimentos fluidos, quase cerimoniais. Girou-o sob a luz. “Isso não se faz ‘para ontem’. Isso leva o tempo que levar. Um mês. Talvez mais.”
“Um *mês*? Eu viajo três continentes em uma semana!”
“Exatamente”, disse Dmitry, secamente, voltando à sua lupa. “Você vive no ar. Este objeto vive no tempo. São reinos diferentes.”
Gabriel saiu irritado, mas algo na calma glacial de Dmitry, no seu universo concentrado e silencioso, ficou com ele. Como um ponto fixo em seu mundo constantemente em movimento.
Voltou uma semana depois, não para pressionar, mas porque a loja era, estranhamente, um porto calmo. Fingiu interesse por um barômetro antigo. Dmitry, percebendo a desculpa frágil, ofereceu-lhe chá em um bule de porcelana fina. E, pela primeira vez, Gabriel desacelerou. Sentou-se. Ouviu Dmitry explicar, com uma paixão contida e bela, a diferença entre um escape de âncora e um escape de cilindro.
Gabriel começou a aparecer entre voos. Trazia pequenas coisas de seus destinos: um café em grão da Etiópia, um chocolate suíço, uma história sobre uma tempestade sobre a Groenlândia. Dmitry, por sua vez, começou a olhar para além da janela de sua loja, a ansiar pelo som de passos rápidos na calçada de paralelepípedos. Mostrou a Gabriel o coração de relógios desmontados, a poesia das engrenagens. “Veja”, ele dizia, “cada peça tem de confiar na outra. A sincronia é tudo.”
Gabriel viajava com o relógio desmontado e envolto em algodão na mochila, prometendo trazê-lo para Dmitry a cada etapa do restauro. Era sua desculpa. Sua âncora.
O ápice veio quando uma tempestade de neve atrasou todos os voos e prendeu Gabriel na cidade por três dias. Ele passou todos eles na loja, ajudando (ou atrapalhando) Dmitry a inventariar peças. Na noite do terceiro dia, com a cidade silenciosa sob a neve, o relógio Breguet finalmente ganhou vida. Dmitry deu-lhe corda e colocou-o suavemente no pulso de Gabriel.
O *tic-tac* era audível na loja silenciosa. Um som vivo, profundo, ritualístico.
“Ele agora guarda o tempo”, sussurrou Dmitry, os dedos ainda tocando o pulso de Gabriel, sentindo o rápido batimento cardíaco do piloto sob a pele.
“Que tempo ele guarda?”, perguntou Gabriel, preso no olhar sério de Dmitry.
“O nosso”, Dmitry respondeu, simplesmente.
Na manhã seguinte, o céu limpou. Gabriel tinha um voo para Montreal. O Breguet marcava a hora certa em seu pulso. Ele olhou para Dmitry, na porta da loja.
“Vou voltar em 48 horas”, disse, e era uma promessa, um plano de voo para o coração.
Dmitry acenou com a cabeça. “O relógio e eu estaremos aqui.”
E assim foi. Gabriel continuou a cruzar os céus, mas agora sempre com um ponto de referência, um meridiano de Greenwich pessoal localizado em uma loja escura perto do cais velho. E Dmitry, o homem do tempo lento, aprendeu a ansiedade e a alegria da espera, a contagem regressiva para o som de passos conhecidos.
O piloto e o relojoeiro. Um vivia para vencer o tempo, o outro para dominá-lo. Juntos, encontraram algo raro: um tempo que valia a pena ser vivido, marcado não por engrenagens ou horários de partida, mas pelos batimentos cardíacos que se sincronizavam cada vez que o furacão pousava, e a quietude o recebia de volta.




