Zalthy Sanz and Tom Storm fuck

O ar no clube de jazz The Velvet Bunker era carregado de uma energia sôfrega e dourada. No palco, Zalthy Sanz dominava o microfone. Seu nome era um sussurro reverente na cena underground de Nova Orleans, uma lenda viva da era do swing que se recusava a morrer. Aos oitenta e dois anos, sua voz não era a de outrora, mas carregava as cicatrizes e a sabedoria de cada nota que já cantara – um som como veludo rasgado e uísque puro. Ela cantava de olhos fechados, transportando a sala para um Harlem dos anos 50 que só existia em sua memória e naquele momento fugaz.
Na plateia, entre a fumaça e a penumbra, Tom Storm tentava desaparecer. Com seus trinta e poucos anos, jeans e camiseta pretas, ele era um contraste gritante. Produtor musical genial e notoriamente intratável, estava em Nova Orleans por obrigação, buscando “alma autêntica” para um projeto que já odiava. O que ele encontrava, geralmente, era nostalgia ensaiada. Até aquele momento.
Quando Zalthy começou “Strange Fruit”, não foi uma performance. Foi um exorcismo. Cada sílaba saía como um golpe baixo, uma dor tão antiga e tão presente que o silêncio na sala ficou físico. Tom, cínico por profissão, sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ele não ouvia uma cantora. Ouvia a própria história do blues, viva, respirando, desafiando-o a gravá-la, a catalogá-la, a reduzi-la a bits.
Após o set, Tom, movido por um impulso que não entendeu, foi aos fundos. Encontrou Zalthy sentada sozinha em um camarim minúsculo, tirando lentamente um par de luvas de renda pretas. Seus olhos, da cor do âmbar, fitaram-no sem surpresa.
“O garoto da gravadora”, ela disse, antes que ele abrisse a boca. Sua voz falada era áspera como conhaque. “Veio me dizer que minha voz tem ‘textura’? Que sou ‘vintage’?”
Tom, normalmente cheio de respostas afiadas, engasgou. “Eu… vim dizer que você acabou comigo.”
Um sorriso lento e torto apareceu nos lábios pintados de vermelho de Zalthy. “Bom. Era a intenção. Agora vai embora, garoto. Estou cansada.”
Ele não foi. Voltou na noite seguinte. E na outra. Não falava de contratos. Sentava-se em um banco ao lado do palco, apenas ouvindo. Zalthy começou a notá-lo, aquele jovem carrancudo que parecia carregar o peso do mundo nos ombros. Uma noite, ela cantou “God Bless the Child” e seus olhos encontraram os dele no refrão. Tom olhou para baixo, esmagando um cigarro imaginário com o pé.
Após a última música, ela o chamou. “Você. Garoto Tempestade. Me ajuda a subir essas escadas malditas.”
Ele a acompanhou, seu braço firme sob o dela, frágil como galho de vidraceiro. Caminharam em silêncio pelo bairro do Tremé até sua pequena casa cor-de-rosa, com as janelas sempre abertas para a música da rua. Ela o convidou para entrar. A casa era um museu de uma vida: fotos em preto e branco com Billie e Duke, discos de vinil pilhados, um piano vertical desafinado.
“Toca alguma coisa”, ela ordenou, apontando para o piano.
Tom hesitou. Sentou-se. Suas mãos, hábeis em mixers e samplers, pairaram sobre as teclas amareladas. Então, ele tocou. Não uma música complexa, mas os acordes simples e sujos de um blues de doze compassos. Era cru, cheio de espaço vazio.




