Worship and Work It Part 1 – DJ Guy Ruben, Jim Fit

O estúdio de fisioterapia “Fit & Flow” ficava no térreo de um prédio comercial antigo. Às seis da manhã, era um templo de silêncio, interrompido apenas pelo som suave de uma máquina de ultrassom e pelas instruções calmas de Jim Fit. Jim era um fisioterapeuta meticuloso, cujo mundo era feito de anatomia, ângulos de movimento e planilhas de progresso. Seus pacientes saíam andando direito, mas raramente saíam sorrindo. O trabalho era eficiente, mas sem música.
No andar de cima, em um loft com vistas para os telhados da cidade, o cenário era o oposto. Ali, até o amanhecer, DJ Guy Ruben comandava seu reino. Seu estúdio caseiro era uma catedral de som – paredes acústicas, duas paredes inteiras de vinis, e um console que parecia a ponte de uma nave espacial. Para Guy, o mundo era uma questão de batidas por minuto, samples cortados no ponto exato, e a busca pela transição perfeita que faria centenas de pessoas, em algum lugar, sentirem algo coletivo. Seu som era famoso, mas seu corpo estava em ruínas: anos de noites em claro, postura horrível nas cabines de DJ e carregando caixas de som pesadas lhe renderam uma lombalgia crônica que ameaçava acabar com sua carreira.
Foi assim que Guy Ruben, o mestre das pistas de dança, desceu um andar e se tornou o paciente mais relutante de Jim Fit.
“As suas vértebras estão travando como um disco riscado, Sr. Ruben”, disse Jim na primeira sessão, observando uma ressonância magnética com a seriedade de um maestro lendo uma partitura.
“Chama-me de Guy. E pode consertar o ‘disco’, doutor?”, perguntou Guy, tentando se acomodar na maca com um gemido.
“Jim. E não ‘conserto’. Reeduco. São sessões. Exercícios específicos. Disciplina.”
As sessões foram um choque de mundos. Jim prescrevia séries de dez repetições, controladas, lentas. Guy, acostumado a explosões de energia, queria resultados imediatos, uma “batida drop” de cura. Jim falava em “isquiotibiais” e “músculo piriforme”. Guy respondia falando de “groove” e “frequências de baixo que massageiam o coração”.
Um dia, após uma sessão particularmente frustrante onde Guy não conseguia executar um alongamento simples, Jim soltou, mais para si mesmo: “É como se o seu corpo não soubesse ouvir o ritmo próprio dele. Está sempre acelerado, fora de compasso.”
Guy parou de lutar contra o alongamento. Olhou para Jim, intrigado. “Fora de compasso… Isso é profundo, doc. Talvez meu corpo precise de um remix.”
Jim ignorou o comentário, mas a semente foi plantada. Na sessão seguinte, enquanto Guy fazia seus exercícios de estabilização pélvica (a “prancha abdominal”, que ele detestava), ele começou a resmungar uma batida básica com a boca: “Tss tss tss bum tss tss tss bum…”
Jim ia repreendê-lo, mas percebeu algo: o ritmo ajudava Guy a manter a respiração constante e o tempo do exercício. Era… funcional.
Lentamente, uma colaboração improvável nasceu. Jim começou a estruturar os exercícios como se fossem sets de DJ. A fase de aquecimento era a “introdução”: movimentos lentos e circulares. A parte principal da sessão era o “build-up”, aumentando a intensidade de forma controlada. Os exercícios mais desafiadores eram o “drop”, exigindo força máxima. E o desaquecimento e alongamento final eram o “cool down”, suave e melódico.




