Dom King trabalhava no estúdio de tatuagem ao lado da barbearia de Mateo Tomas. Entre um cliente e outro, ouviam-se através da parede fina.
Mateo sempre elogiava as tatuagens de Dom. Dom sempre reparava no corte de cabelo impecável de Mateo.
Nunca se falavam direito.
Arno Antino era o carteiro do bairro. Entregava cartas, contas, propagandas. E, nas terças, um café para Dom. Nas quintas, um para Mateo.
Até que numa sexta, Arno entregou o envelope errado.
Dom abriu e encontrou um bilhete de Mateo, escrito para a mãe: *“Conheci um tatuador que me faz querer desenhar, mesmo não sabendo segurar um lápis.”*
Na manhã seguinte, Dom apareceu na barbearia com o bilhete.
“Acho que isso é seu.”
Mateo corou. Leu. Guardou no bolso.
“E o café?”, perguntou.
“Que café?”
“O que você trouxe pra mim agora.”
Dom sorriu. Não tinha café. Mas naquele instante, pediu um na esquina e voltou.
Arno Antino, do outro lado da rua, viu os dois sentados na calçada, dividindo o copo. E pensou que, às vezes, o melhor presente que um carteiro pode entregar não vem nos envelopes certos.




