Riding Abdel Mufasa’s Big Cock (with Tiago Santana)
Tiago Santana carregava o mundo nos ombros. Era pedreiro, pintor, eletricista e, aos domingos, jardineiro da própria esperança. Morava num quarto alugado, mas os sonhos ocupavam mais espaço que os móveis.
Na segunda-feira, caiu do andaime. Três costelas partidas, um braço imobilizado, quinze dias sem trabalhar.
– E agora? – perguntou ao tecto do hospital.
O tecto não respondeu.
Na quarta, recebeu uma visita inesperada. Dona Glória, a vizinha do 101, entrou com uma marmita.
– É canja. A minha mãe dizia que cura tudo. Mentirosa, a velha, mas a canja é boa.
Tiago agradeceu com os olhos. Não sabia que Dona Glória reparava nele. Não sabia que ela via, todas as manhãs, ele a sair antes do sol.
Na sexta, apareceu Seu Jorge, o merceeiro. Trouxe fruta. No sábado, as crianças do prédio desenharam um cartaz: “Força, Tiago”.
No domingo, Tiago Santana voltou para casa. O braço ainda doía. As costelas ainda reclamavam. Mas o mundo pesava menos.
Na varanda, um vaso novo. Gerânios vermelhos. Bilhete anónimo: “Para cuidar no domingo.”
Tiago sorriu. Regou as flores. E entendeu, finalmente, que a esperança também cuida da gente.






