
No bairro industrial de Fulton Yards, onde o concreto reinava e o grafite era a única grama que brotava nos muros, Oz Daddy era uma lenda viva. Dono e mecânico-chefe da oficina “Ozzy’s Chrome & Soul”, ele era um homem largo de ombros, com braços tatuados que contavam a história dos motores que amara e perdeu, e uma voz que soava como o ronco de um V8 mal regulado. Seu reino era o cheiro de graxa, o som de chaves de roda batendo no asfalto e a sabedoria prática de quem conserta coisas quebradas. Oz não consertava apenas carros; consertava problemas, corações pesados e, às vezes, o próprio dia ruim de um cliente. Era respeitado, temido um pouco, e solitário. Seu amor era por máquinas, coisas que faziam sentido, com lógica e manual de instruções.
Aiden Tyler era uma interrogação andante. Chegou a Fulton Yards com uma mudança de carro alugado e um ar de quem havia sido delicadamente deslocado de seu habitat natural. Era ilustrador de livros infantis, um trabalho que fazia de casa, e sua paleta de cores era de suaves aquarelas e linhas sonhadoras. Usava cardigãs até no verão, tinha as mãos manchadas de nanquim e um jeito desengonçado que fazia os mecânicos rirem baixo quando ele passava, perdido, procurando um café que “servisse chá de ervas”. Ele havia se mudado para o apartamento barato acima de uma loja de ferragens, buscando inspiração na “autenticidade” do bairro, que ele via como um cenário fascinante e um pouco assustador.
Seus caminhos colidiram na oficina. O sedã antigo de Aiden, seu único elo com o mundo exterior, soltou fumaça e morreu com um gemido triste bem na frente da Chrome & Soul. Aiden saiu, desesperado, olhando para o capô como se fosse um animal ferido.
Oz Daddy saiu da oficina, limpando as mãos em um pano sujo. “Problema?”
“Ele… parou”, disse Aiden, inutilmente.
“Bastante perceptivo”, Oz resmungou, mas sem malícia. Abriu o capô e assobiou baixo. “É, filho. Isso aqui não é um problema, é um epitáfio.”
Aiden quase chorou. O carro era sua tela móvel, sua bolha. Oz viu o pânico genuíno naquele rosto afável e sentiu um estranho puxão no peito, algo diferente da pena por um motor queimado.
“Vamos ver o que dá pra fazer”, disse, a voz um pouco menos áspera. “Mas vai levar tempo. E dinheiro.”
Os dias seguintes viraram um ritual. Aiden, sem carro, começou a passar as tardes na oficina, esperando notícias. Ele desenhava em seu caderno, sentado em um tambor de óleo vazio, observando Oz trabalhar. A princípio, em silêncio. Depois, fazendo perguntas ingênuas que irritavam e, por fim, divertiam Oz. “Por que esse motor ronca assim? Parece triste.” Oz, pela primeira vez, tentou explicar a combustão interna em termos de sentimentos: “Ele não tá triste, tá com fome. A mistura de ar e combustível tá magra.”
Aiden começou a fazer desenhos dos carros. Não como máquinas, mas como criaturas. Um caminhão de reboque virou um cavalo cansado e nobre. O carro esportivo em restauração virou um jovem galante. Oz fingiu desprezo, mas uma manhã, Aiden viu o desenho do “cavalo cansado” colado com fita magnética na porta da geladeira da oficina, ao lado de calendários de peças.




