Master Ikarus and PJ Knox flip fuck

No alto da Torre de Vigília de Helion, onde o vento cantava canções de esquecimento, Master Ikarus guardava o sono da cidade. Sua vida era uma liturgia de cinzas e frieza. O último de uma linhagem de Guardiões da Chama Moribunda, sua tarefa era observar a centelha mágica que ardia no coração da torre – uma brasa do tamanho de um punho que mantinha os pesadelos da antiga escuridão à distância. Ikarus não alimentava o fogo. Apenas vigiava seu lento apagar. Sua existência era marcada pelo silêncio, pela imobilidade e pela aceitação do fim. A chama definhava, e com ela, seu propósito.
PJ Knox chegou como um incêndio em forma humana. Mensageiro do Gremio dos Candeeiros, uma ordem excêntrica e barulhenta que acreditava que cada lâmpada de rua, cada vela de janela, cada tocha de taverna era uma oração contra a noite. Enquanto Ikarus venerava uma única chama sagrada em seu altar de pedra, Knox venerava dez mil chamas profanas nas ruas. Ele subiu a torre não por reverência, mas por indignação.
“Dizem que você só observa”, Knox disse, sua voz rouca da fumaça das tochas, ecoando na câmara circular. Ele usava um sobretudo manchado de cera e carregava um cheiro de pavio queimado e determinação. “Observar o fim é uma forma de covardia.”
Ikarus não se virou. Seus olhos, acostumados à luz fraca e dançante da brasa, permaneceram fixos nela. “O fogo morre. É a natureza das coisas. Guardar sua morte com dignidade é o meu dever.”
“Bah! Dever de estátua!”, Knox esbravejou, sacando uma lâmpada de óleo de sua bolsa. Com um gesto brusco, ele a acendeu e a colocou no chão, ao lado da plataforma sagrada da Chama Moribunda. A luz dela era amarela, comum, ofensivamente viva. “Uma chama morre. Dez nascem. Esse é o meu dever.”
Ikarus finalmente o encarou, perturbado. A intrusão era um sacrilégio. Mas a luz da lâmpada comum… era quente. Era uma luz que falava de tavernas cheias, de casas aconchegantes, de vida, não de um último suspiro sagrado.
Nos dias seguintes, Knox voltou. Não para rezar, mas para perturbar. Trouxe um pequeno braseiro de carvão para ferver água para chá. Depois, um lampião de gás. Criava pequenos pontos de luz mundana pelo chão de pedra gelada. Ikarus protestava em silêncio, mas sua atenção, por séculos devotada unicamente ao declínio, agora se dividia. Ele via o reflexo dessas luzes vulgares dançando nas paredes úmidas e sentia… algo. Não calor, mas a lembrança dele.
A crise veio em uma noite de tempestade monstruosa. Um vento ancestral, carregado da própria escuridão que a Chama Moribunda mantinha afastada, golpeou a torre. A centelha sagrada vacilou, sua luz reduzida a um vermelho sinistro. Ikarus caiu de joelhos, um grito preso na garganta – o fim estava ali, tangível.
Knox, porém, não se ajoelhou. Ele praguejou. Com movimentos rápidos, ele cercou a Chama Moribunda com todas as suas fontes de luz profanas: a lâmpada de óleo, o lampião, o braseiro, até mesmo uma dúzia de velas gordas que tirou de seus bolsos. Ele não tentou alimentar a chama sagrada. Ele a cercou com um cordão de fogo comum.
“Você não precisa salvá-la!”, Knox gritou contra o uivo do vento. “Precisa lembrá-la do que é estar viva!”
E então, algo impossível aconteceu. A Chama Moribunda, envolta pela cacofonia luminosa e calorosa das chamas ordinárias, pareceu… inspirar. Seu brilho mortiço capturou um reflexo amarelo da vela, um brilho azul do lampião. Não cresceu. Mas parou de diminuir. Estabilizou-se, não como uma relíquia, mas como uma chama entre iguais.
Quando a tempestade passou, Ikarus estava no chão, não de desespero, mas de espanto. Knox, exausto, estava sentado ao seu lado, o rosto sujo de fuligem.
“Como…?”, Ikarus sussurrou, tocando o ar quente ao redor da chama sagrada, agora um manto de múltiplos calores.
“Nenhuma chama quer morrer sozinha”, disse Knox, sua bravata substituída por uma cansada verdade. “Nem mesmo uma sagrada.”
Naquela noite, o Guardião da Chama Moribunda e o Mensageiro das Chamas Vulgares não falaram. Compartilharam o chá quente do braseiro de Knox. Ikarus, pela primeira vez, contou o peso dos séculos de vigília. Knox falou da beleza frenética de manter mil luzes acesas, da fadiga de correr contra a noite.
O amor não foi uma ignição. Foi uma fusão lenta.
Foi Ikarus descer da torre, pela primeira vez em décadas, para ajudar Knox a acender as lâmpadas de gás na praça principal. Suas mãos solenes, acostumadas à imobilidade, tremiam ao acender um pavio comum.
Foi Knox passando a subir a torre não para provocar, mas para mostrar a Ikarus o “mapa de luzes” da cidade que ele desenhava, cada ponto uma história, uma vida.
Foi Ikarus ensinando a Knox os antigos nomes do crepúsculo, os tons de sombra que só um vigia conhece.
Foi Knox, em uma noite calma, pegando a mão gelada de Ikarus e colocando-a sobre o vidro quente de sua lâmpada de óleo. “Este é o calor que eu guardo”, ele disse.




