KnuckleFFuck – Apollo Fates, Arty Boer
A história dos deuses do Olimpo era a especialidade de **Apollo Fates**. Em seu pequeno estúdio de tatuagem no centro da cidade, as paredes eram adornadas com Nike aladas, Zeus furiosos e Afrodites sensualizadas. Ele era um contador de mitos com agulhas, transformando a pele em pergaminhos de histórias antigas. Seu toque era preciso, seu traço, clássico e limpo. Sua própria vida, no entanto, era uma repetição monótona: linhas pretas, tinta vermelha, e o zumbido constante da máquina.
**Arty Boer** era o caos personificado. Um artista de rua que pintava murais explosivos nos becos esquecidos da cidade. Suas obras não tinham deuses, tinham gigantes de cores psicodélicas, animais híbridos feitos de sonhos e pesadelos, e slogans rabiscados que misturavam poesia e protesto. Ele cheirava a tinta spray, café barato e energia pura.
Seus mundos colidiram no muro de tijolos atrás do estúdio de Apollo. Arty, em uma noite de inspiração frenética, cobriu-o com um mural de um cervo alado cujos chifres eram galáxias em espiral, e cujos olhos refletiam a janela do estúdio. Era desordenado, vibrante e ilegal.
Apollo viu pela janela do banheiro na manhã seguinte. Ficou paralisado. Não pela audácia, mas pela *beleza*. Era uma mitologia nova, nascida não do passado, mas do asfalto e da insônia. Ele deveria ficar irritado. Em vez disso, pegou um café extra e saiu.
“Você pinta sobre deuses antigos”, disse Apollo, parado ao lado de Arty, que olhava para sua obra com a crítica de um artista.
Arty levantou uma sobrancelha, manchada de azul. “Não pinto sobre. Pinto ao lado. Os velhos precisam de novos vizinhos, ou ficam chatos.”
Apollo ofereceu o café. Arty aceitou, e seus dedos sujos de tinta tocaram os de Apollo, cobertos por finas linhas pretas de nanquim permanente. O contato foi um choque de mundos.
A partir daí, Arty começou a aparecer no estúdio, não como cliente, mas como visitante. Observava Apollo trabalhar, fascinado pela paciência e permanência daquela arte. Apollo, por sua vez, começou a vagar pelos becos à noite, seguindo o som das latas de spray, assistindo Arty criar universos em tempo real.
A troca era inevitável. Em uma noite tranquila, Arty rolou a manga da camisa surrada.
“Preciso de algo permanente no meio de toda essa fugacidade”, disse, apontando para o próprio braço. “Algo seu.”
Apollo sentiu um nó na garganta. Nunca tivera um pedido tão pessoal. “O que você quer?”
“Surpreenda-me. Use minha linguagem, mas com a sua mão.”
Foi o desafio mais intimidante da carreira de Apollo. Por dias, ele esboçou. Até que a ideia veio: ele projetou uma figura que mesclava o cervo alado de Arty com o deus Apolo. O corpo era anatomia clássica grega, mas a pele era um céu noturno pintado com as cores neon de Arty. Nas mãos, em vez de uma lira, segurava uma lata de spray que cuspia constelações.
A sessão durou horas. O ronronar da máquina de Apollo era a trilha sonora, e o olhar concentrado de Arty, fixo no desenho que ganhava vida em sua própria pele, era a mais intensa aprovação. Quando acabou, Arty olhou no espelho. Ficou em silêncio por um longo momento.
“Você… traduziu-me”, sussurrou. “Pegou o meu ruído e transformou em hino.”
Apollo limpou o excesso de tinta com um lenço. “Você me mostrou que novos deuses podem nascer. Eu só dei a eles um templo.”
O amor deles não foi declarado com palavras, mas com pele e tinta. Arty começou a desenhar os esboços para as tatuagens mitológicas de Apollo, injetando nelas sua vida e cor. Apollo, por sua vez, começou a planejar seus projetos como murais, pensando em escala e impacto.
O estúdio de Apollo ganhou uma parede interna pintada por Arty: um Olimpo onde os deuses usavam jaquetas de couro e tênis, e as nuvens eram tags de spray. E o muro externo, aquele onde tudo começou, agora abrigava uma nova obra: um Apollo clássico, com sua máquina de tatuar, sendo observado por um cervo alado. Era assinado por ambos.
Eles eram, no fundo, dois artistas da permanência e do efêmero. Apollo dava a Arty um porto seguro, uma marca que não seria lavada pela chuva. Arty dava a Apollo permissão para sair das linhas, para colorir fora dos contornos da história. Juntos, não estavam reescrevendo mitos antigos. Estavam escrevendo, na pele e no concreto, um mito inteiramente novo, que começava com um muro pichado e um café compartilhado no amanhecer.




