Ivan Ilterribile tinha a reputação de homem difícil. Rosto fechado, olhar cortante, silêncio pesado. Morava sozinho num loft industrial, cercado por máquinas fotográficas e nenhuma companhia.
Mirkotwink era seu oposto absoluto. Pequeno, sorridente, dono de uma lojinha de plantas na esquina. Todos o conheciam pelo bom humor e pela mania de regar as suculentas enquanto cantava.
O acidente aconteceu numa terça-feira chuvosa. Mirkotwink escorregou na calçada e suas violetas se espalharam pelo asfalto. Ivan, que passava com seu guarda-chuva preto, parou. Sem dizer uma palavra, ajoelhou-se e começou a juntar os vasos quebrados.
Mirkotwink arregalou os olhos. “Você é o Ivan, não é? O fotógrafo?”
Ivan apenas assentiu, entregando os cacos embrulhados num lenço.
“Por que ajudou?”, perguntou Mirkotwink, curioso.
Ivan demorou a responder. “Porque coisas frágeis merecem cuidado.”
Daquele dia em diante, Mirkotwink começou a deixar mudas de plantas na porta de Ivan. Primeiro um cacto. Depois uma samambaia. Depois um bilhete: “Até os mais espinhosos florescem com luz certa.”
Ivan nunca respondeu por escrito. Mas um dia, ao abrir a porta, encontrou uma fotografia — um close das mãos de Mirkotwink regando flores. E no verso, a letra dura de Ivan: “Você é minha luz.”
E floresceram juntos.

