Karioka2ks e Marreta
Karioka2ks era vidraceiro, Marreta, servente. Ela chegava cedo, varria os cacos, preparava a massa. Ele, nos andaimes, media e cortava o vidro com precisão cirúrgica.
O respeito veio primeiro. Ele descia para pegar água, oferecia a ela. Ela guardava um pedaço de bolo, deixava no banco. Trocavam sorrisos tímidos por cima das poeiras da obra.
Um dia, uma tempestade de vento sacudiu a estrutura. Um vidro soltou-se, despencando em mil estilhaços sobre Karioka2ks, que se encolheu, instintivamente. Quando abriu os olhos, viu Marreta à sua frente, de costas, com o capacete amarelo salpicado de lascas brilhantes. Ela ouvira o estalo e fizera escudo com o próprio corpo.
No silêncio que seguiu o estrondo, ele segurou as mãos calejadas dela, agora trêmulas.
— Por que fez isso? — perguntou, a voz rouca.
Ela olhou para os estilhaços no chão, reflexos do céu nublado.
— Porque entre você e o chão, eu fico no meio.
Naquele instante, no meio dos escombros, nasceu o amor mais sólido que a obra já vira.




