Kamil Jezek, Ondra Krahul and David Kadera RAW – AIRPORT SECURITY

O Ateliê no Sótão: O mundo de Kamil Jezek era feito de silêncio e poeira de madeira. Alfaiate de terceira geração, seu ateliê no último andar de um prédio antigo em Praga cheirava a cânfora e lã crua. Suas mãos, finas e precisas, conversavam com tesouras e agulhas. Ele reconstruía ternos com a paciência de um arqueólogo, acreditando que cada peça carregava a alma de quem a usou. Seu coração, no entanto, parecia um paletó perfeitamente cortado, mas nunca usado — impecável e vazio.
A Loja no Térreo: David Kadera ocupava o térreo do mesmo prédio com uma loja de discos de vinil, “Kadera’s Groove”. Seu universo era de chiados, solos de saxofone e batidas perdidas. Extrovertido e impulsivo, David era um caçador de raridades musicais e um contador de histórias. Ele vestia camisetas de bandas e jeans rasgados, e sua risada ecoava entre as pilhas de LP’s. Ele colecionava pessoas tanto quanto discos, mas sua vida afetiva era uma mix-tape de solos curtos — intensos, mas sem uma melodia contínua.
O Homem da Escada: Ondra Krahul morava no segundo andar. Era um restaurador de livros que trabalhava para a Biblioteca Nacional, um homem de gestos meticulosos e fala ponderada. Seu apartamento-chefe era um cheiro de cola orgânica e papel velho. Ondra vivia no mundo das entrelinhas, reparando histórias que outros tinham danificado. Era o observador, o que consertava o passado, mas tinha medo de escrever seu próprio futuro. Passava pelos outros dois no corredor silencioso, com um aceno discreto, carregando a solidão como um livro pesado.




