Jakub Stefano and JJ Aussie jerk together

O universo de Jakub Stefano era meticuloso, silencioso e frio. Ele era o chef de degustação do “Éter”, um restaurante com três estrelas Michelin escondido em um sobrado histórico de Varsóvia. Seu domínio era a precisão milimétrica: emulsões que eram nuvens, espumas que evaporavam na língua, pratos que eram mais conceito do que comida. Ele comandava sua brigada com um aceno de cabeça e um olhar gélido. Jakub não cozinhava para alimentar; ele cozinhava para provocar, para desafiar. O sabor, para ele, era uma equação a ser resolvida.
Do outro lado do mundo, ou melhor, do outro lado do mesmo *prato*, estava **JJ Aussie**. Seu nome verdadeiro era James, mas o apelido grudou por causa do seu jeito irreverente e do seu amor declarado por tudo da Austrália. Ele era o crítico gastronômico mais temido – e secretamente mais admirado – do cenário europeu. Seu paladar era lendário, sua escrita, um furacão. Ele poderia elevar um bistrô obscuro aos céus ou despedaçar um templo gourmet com duas frases bem-humoradas e mortais. JJ não escrevia resenhas; ele contava histórias, e a comida era só o personagem principal.
O destino marcou o encontro no “Éter”. JJ Aussie chegou sem aviso, uma prática sua. Jakub, avisado por um comissário ansioso, sentiu um frio diferente daquele de sua câmara de resfriamento. Era a ansiedade daquele que será desmontado peça por peça.
A refeição foi uma troca silenciosa de golpes e defesas. Jakub enviou sua “Ode ao Inverno Báltico”: uma pedra de granito gelada (açúcar queimado) coberta com uma “neve” de parmesão e um “musgo” de espinafre desidratado. JJ a provou, anotou algo em seu bloco, e seu rosto era um mistério.
O jogo seguiu por mais oito pratos. Até que veio a sobremesa: “Raiz da Memória”. Um cilindro de chocolate negro amargo, preenchido com um licor de cereja cashew e um centro de geleia de beterraba. Uma homenagem à infância de Jakub na fazenda do avô.
JJ Aussie mastigou lentamente. E então, algo inédito aconteceu. Ele não anotou nada. Ele apenas olhou para o prato vazio por um longo momento. Quando seus olhos encontraram os de Jakub, que observava da porta da cozinha com o coração batendo no ouvido, havia algo diferente ali. Não era crítica. Era… reconhecimento.
No dia seguinte, a resenha saiu. O título: “Jakub Stefano: O Matemático que Aprendeu a Chorar”. JJ elogiava a técnica impecável, mas o que ecoou foi o final: *”No último ato, o chef abandona a lousa e oferece, não um cálculo, mas um punhado de terra de sua própria história. É rude, doce, amargo e profundamente humano. Finalmente, depois de tantos voos etéreos, ele pousa. E que sabor tem o chão.”*
Jakub leu e releu, atordoado. Ninguém tinha visto aquilo. Ninguém tinha *sentido* aquilo. Ele foi desmontado, sim, mas não com violência. Foi com uma precisão que doía de tão verdadeira.
Ele encontrou o e-mail de JJ e, quebrando todos os seus protocolos, escreveu: “Você comeu a memória. Como se paga por isso?”
A resposta veio em minutos: “Com café. O pior que você encontrar. Nada de ‘Éter’. Mostre-me onde você bebe quando *não* está sendo um gênio.”
Encontraram-se em uma leitaria barata, com mesas de fórmica. JJ pediu um café turco horrível e um pacote de biscoitos de polvilho. Jakub, deslocado em seu casaco branco impecável, ficou observando.
“Por que essa coisa de ‘Aussie’?”, Jakub perguntou, tomando um gole da bebida forte e amarga.
“Porque na Austrália”, JJ disse, quebrando um biscoito, “um churrasco na praia com um amigo vale mais que um jantar de dez etapas com um estranho. A comida é sobre pessoas, Stefano. Sempre foi. Você só precisava se lembrar disso.”
Naquela mesa ridícula, Jakub sentiu algo desmoronar dentro de si. Não era sua carreira, mas a muralha ao redor dela. JJ Aussie, o furacão, não estava lá para destruir seu mundo. Estava lá para convidá-lo a sair dele.
O amor que nasceu não tinha a forma de um prato elaborado. Tinha a forma de um café compartilhado em copo de vidro, de uma mão enluvada de chef encontrando uma mão manchada de tinta (de tanto escrever) debaixo da mesa. Jakub começou a cozinhar, em casa, coisas simples. Omeletes. Sopas. JJ escrevia, às vezes, apenas observando o outro concentrado no fogão, a fronte franzida em uma preocupação totalmente nova: a de apenas agradar.
Ele era a crítica. Ele era o artista. Juntos, descobriram que o sabor mais raro e complexo não estava no éter, nem na terra, mas no espaço entre dois paladares que, finalmente, se reconheciam como lar.




