Hung Italian construía pontes. Não as de pedra ou metal, mas as que ligam pessoas nos momentos certos. Era dono de uma pequena trattoria onde servia massas e segredos, e todos os que lá entravam saíam um pouco mais leves.
Ricky Hard não acreditava em leveza. Trabalhava como segurança num casino, via o pior das pessoas todas as noites, e jurava que o amor era uma invenção para vender filmes.
Conheceram-se numa madrugada chuvosa. Ricky entrou na trattoria já fechada, só para se abrigar. Hung estava a contar os talheres, mas ao vê-lo encharcado, abriu a porta sem perguntas.
— Não serves nada — avisou Ricky. — Não tenho dinheiro.
— Quem falou em dinheiro? — respondeu Hung, empurrando um prato de spaghetti para ele.
Ricky comeu em silêncio. Hung sentou-se à sua frente.
— Porque fazes isto? — perguntou Ricky, finalmente.
— Porque tu precisavas. E porque eu precisava de alguém que precisasse de mim.
Ricky deixou o garfo cair. Olhou para Hung como se visse uma ponte onde antes só havia vazio.
— Volto amanhã — disse, ao sair.
— Traz fome — sorriu Hung.
E trouxe. Todas as noites, durante um mês. Até que uma madrugada, em vez de se sentar à mesa, Ricky foi para o lado de Hung, atrás do balcão.
— Acho que encontrei onde pertenço — murmurou.
Hung limpou as mãos ao avental e segurou as dele.
— A ponte já estava aqui. Só precisavas de atravessar.

