Havia um silêncio peculiar na biblioteca Além da Página, quebrado apenas pelo sussurro das páginas sendo viradas. Hugo Dupre preferia assim: o cheiro de papel envelhecido, a solidão entre as estantes altas, e a companhia silenciosa dos livros. Era um lugar onde as histórias estavam seguras, presas nas linhas impressas, sem o risco de escaparem e complicarem a vida de alguém.
Ele trabalhava como encadernador na pequena livraria, um ofício que exigia paciência, precisão e um certo distanciamento emocional. Até que um volume específico chegou às suas mãos: “A Cartografia dos Sonhos Esquecidos”, de Eduell Evindur. O livro era uma raridade, com a capa danificada e as páginas soltas, mas havia algo na prosa, uma melancolia lírica e uma nostalgia por lugares que nem pareciam reais, que tocou Hugo de forma estranha.

