
**O Construtor de Universos**
Em Nova Albion, uma cidade de néons úmidos e chuva ácida, Dato Foland era um lenda discreta. Ele não construía arranha-céus ou pontes, mas **mundos**. Era o arquiteto-chefe da **”Elysian Realms”**, a maior empresa de metaversos imersivos do planeta. Seus dedos, finos e ágeis, teciam códigos que se tornavam florestas, cidades flutuantes e sóis duplos. Mas Dato vivia preso em um paradoxo: criava paraísos digitais para milhões, enquanto seu próprio mundo real era uma cela de vidro escuro e silêncio, fria e estéril. A realidade para ele era um defeito a ser corrigido.
**Liam Harding** era a antítese física de Dato. Um agrônomo de mãos calejadas e sorriso fácil, Liam trabalhava no **”Projeto Arcádia”**, uma tentativa desesperada de recuperar os solos envenenados da periferia da cidade. Seu universo era de terra, fungos simbióticos, bactérias reparadoras e a paciência milenar das coisas que crescem. Ele falava com as plantas e acreditava que a cura para o futuro estava no passado, enterrada na terra, não nas nuvens de dados.
**Soy David** era o elo, e a ruptura. O mais famoso “Navegador” das Elysian Realms, um explorador profissional dos mundos de Dato. Com um corpo atlético mantido por realidade virtual passiva e uma mente ágil como um raio, Soy era a pessoa que testava os limites dos universos, encontrando falhas na física digital e belezas não intencionais. Ele era a ponte entre a criação e o usuário, mas vivia uma desconexão profunda: no mundo real, ele se sentia um fantasma, um estranho. Sua fama e riqueza eram digitais; sua solidão, absolutamente concreta.
Os caminhos deles se cruzaram por acaso, em um evento de caridade. Dato, obrigado a sair de sua torre de marfim digital; Liam, buscando patrocínio para seu projeto de terra; Soy, como garoto-propaganda da Elysian. Liam, com um vaso de uma flor metálica azul que ele conseguira cultivar no solo tóxico, falou com uma paixão tão visceral pela vida real que tanto Dato quanto Soy, cada um à sua maneira, ficaram hipnotizados. Para Dato, aquela paixão era um código-fonte que ele não conseguia decifrar. Para Soy, era uma autenticidade que ele nunca possuiria.
Dato, movido por uma curiosidade sem precedentes, ofereceu a parceria mais improvável: usar os algoritmos de simulação da Elysian para modelar e acelerar as pesquisas de recuperação do solo de Liam. Liam aceitou, desconfiado, mas fascinado pela ferramenta. Soy foi designado por Dato para ser o “intérprete”, aquele que traduziria o mundo orgânico e caótico de Liam para a lógica binária de Dato.
Nos meses seguintes, um estranho triângulo se formou, não de conflito, mas de preenchimento. Na estufa de Liam, suja de terra, Dato aprendia sobre o cheiro da vida real. No loft minimalista de Dato, Liam via a beleza abstrata da ordem pura. E Soy, entre os dois, começou a se sentir… real. As mãos de Liam, que acertavam um sensor no solo, tocavam as dele durante a calibração. Os olhos obsessivos de Dato, que observavam Soy traduzir um conceito, o faziam sentir-se visto, não como um avatar, mas como uma pessoa.
O ponto de ruptura veio quando uma falha no novo metaverso **”Veridian”** de Dato ameaçou apagar meses de dados colaborativos do projeto de Liam. Soy, usando suas habilidades de Navegador, entrou no coração do mundo digital para salvar a simulação. Dato, do lado de fora, assistia, impotente, pela primeira vez em sua vida temendo perder algo que não era feito de código, mas de suor, terra e conversas compartilhadas. Liam, ao seu lado, colocou uma mão firme no seu ombro—um contato físico que fez Dato estremecer, não de repulsa, mas de reconhecimento.
Soy conseguiu. Ao sair do terminal, exausto, ele encontrou os dois esperando por ele. Não na sala de controle, mas na pequena varanda de Dato, onde Liam, secretamente, começara a cultivar ervas em latas velhas. O cheiro de manjericão e terra molhada enchia o ar, uma vitória ínfima e monumental sobre o mundo estéril.
Nenhum deles disse “eu te amo”. As palavras eram pequenas demais para o que se construíra.
Dato olhou para seus dois mundos: Liam, que lhe ensinara a textura, e Soy, que lhe mostrara a ponte. Ele desligou seu terminal principal, o que guardava os universos inacabados. “O próximo projeto”, ele disse, sua voz estranha no ar não filtrado, “será um modelo para regenerar o parque daqui da esquina. Um mundo. Só um. E real.”
Liam sorriu, oferecendo uma folha de manjericão para Soy cheirar. Soy fechou os olhos, respirou fundo e, pela primeira vez em anos, não sentiu saudade de lugar nenhum. Estava exatamente onde deveria estar: no ponto onde a terra encontra o código, e onde o código, finalmente, aprende a florescer.




