Girthy VVang, Jonah Wheeler – another fucking
No extremo leste da cidade portuária de Bahia Seca, onde os armazéns de grãos encontravam o deserto, dois homens eram lendas por razões que poucos compreendiam totalmente.
**Girthy VVang** (todos pronunciavam “Wang”, o “V” duplo era um mistério) era um **carregador de docas**. Não um entre muitos – *o* carregador. Um homem de estatura e força quase mitológicas, capaz de mover sozinho fardos que exigiam três homens normais. Diziam que seus ombros haviam moldado a curva da coluna vertebral do cais. Girthy não falava muito; sua linguagem era o gemido das cordas sob tensão, o baque surdo dos sacos no convés, o suor que escorria como um rio salgado. Era respeitado, temido um pouco, e profundamente solitário. Sua força era um muro entre ele e o mundo; as pessoas viam o que ele podia carregar, nunca *quem* carregava aqueles pesos.
**Jonah Wheeler** era um **engenheiro eólico**, um “caçador de ventos”. Magro, ágil, com olhos que pareciam sempre calcular ângulos e velocidades, ele perambulava pelo deserto e pelo litoral com instrumentos estranhos – anemômetros, cones de fluxo, pequenos moinhos de teste feitos de lata e tecido. Ele projetava e construía turbinas eólicas para comunidades remotas. Sua paixão era capturar o invisível, domesticar o sopro do deserto, transformar ar em movimento, movimento em energia. Enquanto Girthy lidava com a massa sólida, Jonah dançava com o intangível.
Seus mundos colidiram literalmente. Jonah, distraído mapeando um corredor de vento perigoso perto dos armazéns, não viu um guindaste girar. Uma carga de sacos de grãos escapou do gancho e despencou em sua direção. Não houve tempo para gritar.
Houve apenas um som: um **”OOF!”** profundo, gutural, seguido de um silêncio de impacto. Jonah abriu os olhos, que havia fechado instintivamente. Os sacos, pesando mais que um carro, estavam suspensos a meio metro de seu rosto, sustentados por dois braços que mais pareciam vigas de carvalho. Eram os braços de Girthy VVang. Os músculos tremiam sob a pele, as veias saltadas como cordas, mas ele os segurava. Firme.
Girthy baixou a carga com um esforço titânico, mas controlado, ao lado de Jonah. Em seguida, ofereceu uma mão do tamanho de uma pá para ajudá-lo a se levantar. Jonah, ainda em choque, pegou-a. A mão de Girthy era quente, áspera como lixa grossa, e surpreendentemente gentil.
“Você… você poderia ter morrido”, balbuciou Jonah.
“Você também”, respondeu Girthy, sua voz um baixo raro e áspero por falta de uso. “Não olha por onde anda.”
Jonah, ao invés de se afastar, ficou fascinado. “A força… a alavanca… você redistribuiu o peso na hora! Foi um cálculo físico instintivo perfeito!”
Girthy franziu a testa, confuso com o jorro de palavras técnicas. “Só segurei.”
A partir daquele dia, Jonah tornou-se uma presença constante nas docas. Trazia café para Girthy (em um termo grande o suficiente para ser uma caneca digna). Observava seu trabalho com a admiração de um cientista. Girthy, inicialmente desconfiado, começou a gostar daquela atenção quieta e inteligente. Jonah não tinha medo dele. Via além da força. Perguntava sobre seus músculos não como um espetáculo, mas como uma maravilha da engenharia natural.
Jonah, por sua vez, começou a explicar seus projetos. Mostrou a Girthy os desenhos de suas turbinas. “Elas precisam de bases fortes, Girthy. Fundações que aguentem a fúria do vento. Ninguém entende de força estrutural como você.”
Pela primeira vez, alguém pedia o *conhecimento* de Girthy, não apenas seus músculos.
Uma amizade estranha e profunda floresceu. Girthy começou a ajudar Jonah a instalar as pesadas bases de concreto das turbinas no deserto. Sua força, guiada pela precisão de Jonah, tornava o trabalho rápido e seguro. Jonah, em troca, projetou para Girthy um sistema de polias e contrapesos para o trabalho nas docas, que poupava suas costas sem roubar sua dignidade.
Girthy, o homem de poucas palavras, começou a falar. Sobre a canção do mar à noite, sobre o peso do silêncio, sobre a solidão de ser um monumento vivo. Jonah, o tagarela, aprendeu a ouvir. E a tocar. Um dia, após ajustarem juntos uma turbina, sentados na areia quente ao pôr do sol, Jonah, sem pensar, apoiou a cabeça no ombro imenso de Girthy. Era como apoiar-se numa montanha quente.
“Você captura ventos”, disse Girthy, sua voz um ronco próximo do ouvido de Jonah. “Eu seguro mundos.”
“Preciso de um lugar para ancorar meus ventos”, sussurrou Jonah. “Eles estão sempre me levando para longe.”
“Eu não saio do lugar”, disse Girthy. E foi uma promessa.
O amor entre eles não foi uma declaração, mas uma construção. Como a base de uma turbina. Firme, profunda, feita para suportar tempestades.
Jonah recebeu uma oferta para um grande projeto no outro lado do país. Era a chance da sua carreira. Ele foi até as docas, o coração pesado. Girthy estava descarregando um navio sozinho, uma sinfonia de esforço silencioso.
“Eles me chamaram, Girthy. No norte. É… importante.”
Girthy parou. Baixou uma caixa lentamente. Assentiu, o rosto inexpressivo. “Você vai. Você é vento.”
Jonah sentiu as palavras como um soco. “E você é minha âncora”, ele insistiu, a voz falhando.
Girthy se aproximou, sua sombra engolindo Jonah. Pela primeira vez, levantou a mão e tocou o rosto de Jonah, com uma delicadeza que parecia impossível. “Âncoras são para navios. Você não é um navio. Você é uma tempestade bonita. Vai.”
Jonah partiu. O projeto foi um sucesso. Mas o vento do norte não tinha o cheiro de sal e suor que ele amava. As fundações que ele projetava não tinham a força silenciosa de Girthy.
Um mês depois, na doca, ao pôr do sol, Girthy ouviu um som familiar. Um motor de jipe velho. Jonah saltou, correu por entre as pilhas de contêineres. Parou diante de Girthy, ofegante.
“Percebi uma coisa”, disse Jonah, os olhos brilhando. “Eu não capturo ventos para fazê-los parar. Eu os capturo para transformá-los em energia. E a energia… ela precisa de um ponto para fluir. Precisa de uma rede. Eu construo a rede, Girthy. Mas a minha central… a minha única central… é aqui.”
Girthy não disse nada. Apenas abriu os braços, aqueles braços que carregavam mundos. E Jonah se moveu para dentro deles, e foi envolvido, levantado do chão em um abraço que era ao mesmo tempo um refúgio e uma celebração.
E assim, na fronteira entre o mar e o deserto, o homem que sustentava o mundo físico e o homem que capturava o mundo invisível descobriram que eram, na verdade, o sistema perfeito. Um era a força imóvel, a fundação. O outro, a força em movimento, a energia. Juntos, eles não apenas carregavam pesos ou capturavam ventos. Eles criavam um lar. Um lar onde o gigante podia finalmente descansar, e o inventor podia, enfim, parar de vagar.




