
Allen Silver era um homem de poucas palavras e muitos reparos. Dono de uma pequena marcenaria chamada “Silver’s Touch”, ele encontrava nas texturas da madeira uma linguagem mais honesta do que qualquer conversa. Sua vida era um ritmo calmo e previsível: serragem ao amanhecer, verniz ao entardecer, solidão ao anoitecer.
Tudo mudou quando **Jonah Wheeler** entrou em sua loja, não para encomendar um móvel, mas para perguntar sobre aulas de marcenaria. Jonah era o oposto de Allen: falava com as mãos, ria com os olhos e trazia consigo uma energia que parecia iluminar a poeira suspensa no ar. Allen, cauteloso, relutou. Mas algo na genuína curiosidade de Jonah o fez ceder.
Enquanto ensinava Jonah a diferenciar um carvalho de um freixo, Allen descobria a paciência. Enquanto Allen aprendia a confiar no processo, Jonah descobria a quietude. As tardes na oficina tornaram-se um balé silencioso de mãos ocupadas e olhares fugidios. Um sorriso compartilhado aqui, um toque acidental ali. A conexão cresceu, lenta e sólida, como uma boa junta de caixa.
Mas a vida, como a madeira, tem seus nós. **Rory Davis** era o melhor amigo de Jonah desde a infância, uma força da natureza com um coração de ouro e uma lealdade inabalável. Rory estava sempre por perto, trazendo café, fazendo piadas e, sem querer, sendo uma presença constante. Para Allen, acostumado a ter seu espaço sagrado, Rory era uma tempestade de interações. Para Jonah, Rory era apenas lar.
Allen começou a sentir um frio na barriga. Ele não entendia o vínculo entre Jonah e Rory, e a insegurança, um cupim silencioso, começou a roer sua confiança. Ele via a facilidade entre os dois, as histórias que não compartilhava, a história que não tinha vivido. Em um momento de fraqueza, Allen afastou-se. Inventou compromissos, encurtou as aulas. Jonah, confuso e magoado, parou de aparecer.
A oficina, outrora um lugar de descoberta, voltou a ser apenas um lugar de trabalho. O silêncio, antes companheiro, agora era opressor. Allen percebeu, tarde demais, que tinha consertado móveis a vida toda, mas não tinha coragem de consertar o que realmente importava.
Foi Rory quem foi até a marcenaria, uma semana depois. Sem o sorriso habitual.
“Ele está um desastre, Allen. E você também está. Vocês dois são burros demais para ver o óbvio?”
Allen tentou protestar, falar da conexão que ele não entendia.
Rory suspirou. “Jonah é minha família. A pessoa que me ajuda a lembrar de onde vim. Mas você, Allen… você é o porto onde ele quer chegar. São coisas diferentes. Ele te olha de um jeito que nunca me olhou.”
A coragem, às vezes, vem de onde menos se espera. Allen pegou um pequeno pedaço de cerejeira, sua madeira favorita, e começou a trabalhar. Não era um móvel, nem um conserto. Era uma escultura de duas figuras entrelaçadas, suas bases formando uma única raiz.
Foi até o apartamento de Jonah, seu coração batendo mais forte que qualquer serra elétrica. Quando Jonah abriu a porta, os olhos vermelhos e cautelosos, Allen não disse nada. Apenas entregou a escultura.
Jonah olhou para as figuras de madeira, para as mãos calejadas que as haviam talhado, e então para os olhos sinceros de Allen.
“Eu sou um tolo”, Allen sussurrou. “Pensei que para ter espaço no seu coração, teria que dividi-lo. Não percebi que os corações não funcionam assim.”
Jonah segurou a escultura, seus dedos encontrando as mesmas ranhuras que os dedos de Allen haviam polido. “Rory me ajudou a encontrar meu rumo”, ele disse, suavemente. “Mas você, Allen, é meu lar. E um lar nunca é uma divisão. É um refúgio.”
Allen puxou Jonah para dentro, e o abraço foi como encaixar a última peça de um quebra-cabeça complexo e perfeito. Rory, observando discretamente da escada, sorriu e sacudiu a cabeça, indo embora sabendo que seu trabalho ali estava feito. A história de amor deles não era uma linha reta, mas uma junta de encaixe: forte, bela e feita para durar.




