Gabriel Coimbra era advogado, vivia de ternos e prazos. Jhon Guevara pintava muros na periferia, com latas de tinta e sonhos coloridos.
Numa tarde chuvosa, o carro de Gabriel quebrou bem em frente ao muro que Jhon pintava. Era um dragão azul, imenso, cuspindo flores.
“Bonito”, disse Gabriel, sem querer.
Jhon virou-se, surpreso. “Ninguém para aqui.”
Gabriel ficou. Viu o dragão ganhar asas, depois escamas, depois alma. Voltou no dia seguinte. E no outro.
Trocavam poucas palavras. Mas um dia, Gabriel levou telas e tintas que guardava há anos no armário.
“Desenhei quando jovem. Parei por medo.”
Jhon olhou para ele. “Medo de quê?”
“De ser ruim.”
Jhon entregou um pincel. “Ser ruim é o primeiro passo para ser bom.”
Gabriel pintou uma flor torta. Era feia. Era perfeita. Era o começo. E entendeu que não se precisa salvar o mundo — às vezes, basta salvar o dragão dentro de você.

