David Macedo, o Gatodoyleche, tinha faro apurado para encrenca. Leandr Joc, seu fiel escudeiro, carregava uma lanterna que só acendia na presença de verdades inconvenientes.
Numa noite sem lua, os dois patrulhavam o beco do Mercado Velho. O cheiro de leite azedo denunciava algo errado. “Falsificadores”, murmurou David, bigodes trêmulos. Leandr acendeu a lanterna — e ela iluminou não criminosos, mas um garoto encolhido entre caixotes, com olhos de fome.
O Gatodoyleche fungou o ar. “Cheiro de medo e abandono.” Leandr guardou a lanterna. “Não há mentira aqui.”
Deram ao menino leite fresco e um cobertor. Na manhã seguinte, David voltou ao beco com um prato de mingau. A criança sorriu — primeiro sorriso em semanas.
David Macedo olhou para Leandr. “Às vezes, o melhor faro não denuncia. Acolhe.”
E os dois, o gato detetive e o guardião da verdade, sentaram-se lado a lado no chão sujo, fazendo companhia a quem mais precisava.

