Chez Ortiz Gives His Hole To Louis Ricaute
O vento soprava folhas secas pela praça vazia da pequena vila de Saint-Célène. Dois homens, sentados em lados opostos do balcão do Café du Soleil, representavam as duas faces da moeda que era aquele lugar.
De um lado, **Chez Ortiz**, o padeiro. Seu nome era uma homenagem à avó espanhola, mas suas mãos e seu coração eram totalmente franceses. Chez era um homem de rotinas imutáveis: acordar às três da madrugada, amassar a massa com uma paciência de santo, e observar a vida passar de sua padaria às cinco da tarde, com um copo de vinho tinto. Era sólido, constante, como o pão que produzia. O cheiro de fermento e farinha era sua bandeira.
Do outro lado da praça, mas parecendo estar em outro universo, estava **Louis Ricaute**. Ninguém sabia ao certo de que ele vivia. Tinha uns cinquenta anos bem vividos, um chapéu desgastado e um sorriso que era ao mesmo tempo um convite e uma advertência. Louis era um vendedor de sonhos, um contador de histórias, um especulador de oportunidades. Chegava sem aviso e partira da mesma forma, deixando para trás um rastro de promessas e uma ou duas carteiras mais vazias. Era fluido, imprevisível, como a fumaça do seu cigarro de palha.
Um dia, Louis apareceu na padaria de Chez, não para comprar pão, mas para fazer uma proposta.
“Ortiz, meu amigo!”, começou, com sua voz melíflua. “Esta vila dorme. Mas nós podemos acordá-la. Imagine… um festival. O Primeiro Festival do Pão de Saint-Célène. Eu cuido dos negócios, dos permissois, da publicidade. Você, o mestre padeiro, será a estrela.”
Chez, um homem de farinha e não de falácias, relutou. Mas Louis era persuasivo. Falou da glória, do orgulho, de colocar o nome de Saint-Célène no mapa. E, num cantinho escondido de sua alma prática, Chez tinha o sonho de que seu pão, realmente, fosse celebrado.
O festival foi marcado. Louis sumiu por uma semana e voltou com cartazes, um carro de som e a promessa de um jornalista de Paris. Chez trabalhou como nunca. Criou pães com azeitonas da Provença, com queijos locais, com uma massa madre que era seu tesouro secreto.
O dia chegou. A praça encheu. O cheiro do pão de Chez Ortiz era magnético. As pessoas comiam, elogiavam, e seus olhos brilhavam. Foi um sucesso. No fim do dia, exausto mas feliz, Chez procurou Louis para dividir a modesta quantia arrecadada.
Encontrou-o na estação de trem, com uma mala pequena.
“Parte já, Louis? E a nossa parceria?”
Louis Ricaute deu sua risada característica, um som seco e alegre. “Minha querida parceria, Ortiz, era fazer isso acontecer. E aconteceu. Você é um herói. O padeiro famoso. O meu trabalho está feito.” Ele botou o chapéu. “O lucro, meu amigo, é todo seu. E o meu? Bem, o meu é a partida.”
Chez ficou parado, observando o trem desaparecer na noite. Sentiu uma ponta de raiva, depois de alívio, e por fim, um sorriso surgiu em seu rosto cansado. Louis não levara um centime. Apenas provara, mais uma vez, que sua moeda de troca não era o dinheiro, mas a própria agitação que causava no mundo.
No dia seguinte, a padaria de Chez Ortiz abriu como sempre. Mas agora, havia uma placa nova na vitrine: “Pão Louis Ricaute” – uma criação especial, crocante por fora, com um recheio surpresa e levemente traiçoeiro de pimenta. Era um sucesso. E toda vez que alguém perguntava sobre o nome, Chez apenas sorria, olhando para a praça vazia, lembrando do homem que era como o vento: impossível de segurar, mas que, por um instante, tinha ajudado a fazer o cheiro do seu pão viajar mais longe.




