Silvério não escolheu o apelido. “UBER TARADÃO” foi pintado com tinta spray na lateral de seu fusca 78 após um mal-entendido no bairro. A verdade? Ele só dirigia devagar demais porque transportava rosas. Centenas delas.
Toda noite, Silvério colhia flores do próprio quintal e entregava a passageiros tristes. Uma moça que perdeu o gato ganhava um cravo. Um senhor sozinho no aniversário recebia uma rosa amarela. As pessoas riam do nome no carro, mas aceitavam as flores.
Certa madrugada, uma passageira entrou aos prantos. “Meu namorado terminou por mensagem.” Silvério não disse nada. Apenas pegou o buquê mais bonito — onze rosas vermelhas — e entregou.
“É de graça”, murmurou. “O nome do carro é brincadeira dos vizinhos. Mas as flores são verdade.”
Ela sorriu. Desceu no fim da corrida com as pétalas coladas ao peito. Na manhã seguinte, alguém raspou a tinta spray e escreveu com dourado: “UBER DAS ROSAS”. Silvério achou que cabia certinho.

