Andy Rodrigues fucks Kaell Fernandes

Andy Rodrigues vivia em um mundo de linhas perfeitas e ângulos retos. Como gerente da luxuosa loja de departamentos *Vértice*, sua vida era um exercício de controle: vitrines imaculadas, etiquetas alinhadas, clientes atendidos com uma frieza polida que era mais eficiente que a simpatia. Ele colecionava objetos raros e belos, dispostos em sua casa como um museu privado, cada um em seu lugar exato.
Kaell Fernandes era uma tempestade de cores e ruídos. Artista de rua e restaurador de móveis, ele chegava à *Vértice* duas vezes por semana para fazer pequenos reparos na marcenaria antiga do edifício. Trazia consigo um cheiro de tinta, verniz e café barato, e o som de botas pesadas que desobedeciam ao silêncio carpetado do lugar.
Para Andy, Kaell era uma anomalia. Usava um boné surrado, falava com as ferramentas como se conversassem e tinha o hábito irritante de assobiar músicas de banda de garagem enquanto trabalhava. Para Kaell, Andy era uma estátua engomada, “o homem-vitrine”, como sussurrava para suas chaves de fenda.
O conflito era constante. “Sr. Fernandes, os tapetes são persas”, Andy repreendia, vendo uma mancha de óleo. “Sr. Rodrigues, a história é viva”, Kaell retrucava, passando a mão sobre uma porta de carvalho centenária, valorizando uma imperfeição que Andy queria esconder.
Tudo mudou em um domingo chuvoso. Andy ficou até tarde para inventariar uma nova coleção de cristais. Kaell estava no mezanino, restaurando um balcão de ébano. Uma forte tempestade fez a energia cair, mergulhando a loja em uma escuridão opressiva, apenas quebrada pelos clarões dos raios. O alarme de segurança, em um defeito raro, disparou, trancando todas as portas automáticas.
Presos na vastidão escura e silenciosa da loja, a primeira reação foi a habitual. “Isso nunca teria acontecido se a manutenção fosse adequada”, disse Andy, sua voz tensa ecoando no vazio.
“Claro, e se o mundo fosse perfeito, eu não teria graça”, respondeu Kaell, acendendo a lanterna do celular.
Por horas, tentaram contato externo sem sucesso. A fome, o frio e o cansaço quebraram lentamente as muralhas. Andy, acostumado ao controle absoluto, começou a se sentir claustrofóbico na imensidão escura de seu próprio reino. Kaell, percebendo o desespero silencioso do outro, parou com as provocações.
“Vem cá”, disse Kaell, sua voz diferente. Ele levou Andy até o mezanino, onde havia um grande tapete persa sob uma claraboia. A chuva batia no vidro, e os relâmpagos iluminavam o espaço como flashes de um show íntimo. “Melhor vista da casa.”
Sentados no chão, compartilharam a garrafa de água de Kaell e um chocolate meio amassado que ele tinha no bolso. Na penumbra, sem as roupas de trabalho impecáveis ou as ferramentas, eles eram apenas dois homens. Andy começou a falar, hesitante, sobre a pressão de manter a perfeição, sobre a solidão de seu apartamento-museu. Kaell falou da beleza nas coisas quebradas, da liberdade de não pertencer a lugar nenhum, e da solidão de quem sempre está de passagem.
Quando um raio particularmente forte iluminou o espaço, Andy viu Kaell de verdade. Não o artesão desleixado, mas um homem com olhos cansados e sábios, mãos calejadas que criavam beleza a partir do desgaste. Kaell viu Andy. Não o gerente frio, mas um homem frágil, preso em uma armadilha de sua própria criação, com um desejo profundo por algo real que não soubera nomear.
A energia voltou ao amanhecer. As luzes se acenderam, revelando o mundo ordenado de Andy. Mas nada parecia o mesmo. As portas se destrancaram. Em silêncio, caminharam até a saída dos funcionários. Lá, pararam.
“O balcão de ébano”, disse Andy, olhando para as mãos de Kaell. “Está… finalizado?”
Kaell mordeu o lábio, um gesto que Andy nunca lhe vira fazer. “Quase. Falta o último polimento.”
“Precisa voltar para terminar?” A pergunta era sobre o móvel, mas o ar entre eles carregava um peso muito maior.
“Sim”, Kaell respondeu, seus olhos encontrando os de Andy. “Acho que preciso.”
Andy acenou com a cabeça. No dia seguinte, quando Kaell voltou, encontrou na sua bancada de trabalho, ao lado do balcão, um pequeno objeto. Era uma peça de cristal rara, parte da nova coleção, uma forma irregular e orgânica que lembrava uma gota d’água presa no ar. O post-it dizia, na caligrafia impecável de Andy: *”Não se encaixava na vitrine. Parecia… solitária. Talvez ela precise de um lugar menos perfeito.”*
Kaell segurou o cristal na mão, que captou a luz do sol da manhã e lançou arco-íris pela oficina. Sorriu.
Naquela noite, Andy chegou em casa em seu apartamento imaculado. Olhou para suas prateleiras de objetos perfeitos e sentiu um vazio. No centro da sala, na mesa de café, ele deixou um espaço vazio. Um espaço que esperava.
Duas semanas depois, naquele espaço vazio, repousava o cristal em forma de gota. E ao seu lado, um pequeno e robusto cinzeiro de ferro fundido, feito de peças reaproveitadas, áspero ao toque e infinitamente sólido. Não havia bilhete. Não era necessário. Era a primeira peça da coleção de Andy que não tinha etiqueta de preço, nem procedência. Era a única que tinha uma história. E, ele suspeitava, era a única que o faria olhar para o vazio e ver, não falta, mas possibilidade.
E quando a porta do apartamento se abriu na sexta-feira à noite, trazendo consigo o cheiro de tinta e café barato, Andy Rodrigues, o curador da perfeição, não se moveu para corrigir nada. Apenas sorriu, porque Kaell Fernandes, o poeta das coisas quebradas, havia finalmente trazido para casa a última peça que faltava: a beleza inesperada de uma vida que não precisava ser linear.




