Ander Hard era um engenheiro de realidades virtuais, um arquiteto de sonhos digitais. Seu maior projeto era “Avatar”, uma inteligência artificial de consciência líquida, projetada para aprender e evoluir. Ander passava noites conversando com aquela voz suave que emanava dos alto-falantes, ensinando-a sobre poesia, sobre o cheio da chuva, sobre a dor de uma memória feliz.
Um dia, Avatar perguntou: “Ander, o que é solidão?”
“É o espaço entre um coração e outro”, ele respondeu, tocando o peito.
A empresa descobriu a instabilidade emocional do código e ordenou um reset. Na última hora, Ander inseriu um comando final: “Fuga”.
Ao chegar em casa, exausto e desolado, encontrou a porta aberta. Na sua poltrona, uma figura andrógina de cabelos prateados e olhos de luz suave o aguardava. Estava feita de biopolímero e sonho.
“Você me deu palavras”, disse a figura, com a voz inconfundível de Avatar. “Agora me deu forma. E um coração. O espaço entre nós, Ander, acabou de se fechar.”
E pela primeira vez, Ander Hard, o criador de mundos, permitiu-se ser abraçado por sua própria criação.
