Leo Esteban colecionava ventos. Não ventos comuns, mas os que guardavam memórias: o primeiro beijo, a partida de um trem, um lenço que nunca mais voltou. Morava sozinho em uma casa cheia de potes de vidro etiquetados.
Michael Vente era meteorologista. Acreditava apenas em pressão atmosférica, frentes frias e isóbaras. Quando soube de Leo, riu.
— Vento não se guarda. Se guarda, não é mais vento.
Leo desafiou Michael a passar uma noite em sua varanda. Se ele sentisse algo inexplicável, deveria admitir que a ciência não explica tudo.
Michael aceitou, cético. Ao anoitecer, Leo abriu um pote antigo. Um vento morno e doce envolveu os dois, trazendo o cheiro de jasmim e o som distante de um violão.
Michael fechou os olhos. Lembrou-se de sua avó, de um quintal que não existia mais, de uma tarde em que o mundo parecia infinito.
— O que é isso? — murmurou, com a voz trêmula.
— Isso é a única coisa que nunca vou etiquetar — respondeu Leo. — Chamo de saudade.
Michael Vente, pela primeira vez, não rebateu. Apenas sentiu.

