Flaquito Vergon era tão magro que o vento o levava. Leandr Joc, seu oposto, carregava uma barriga de tão rir da vida. Andavam juntos por uma razão simples: Flaquito esquecia de comer, e Leandr lembrava de tudo.
— Come, homem — dizia Leandr, empurrando um pão na mão do amigo.
— Depois — Flaquito respondia, os olhos perdidos nas nuvens.
Certo dia, Flaquito desapareceu. Leandr procurou em cada boteco, cada ponte, cada pensão. Nada. Três dias depois, encontrou-o sentado num morro, olhando o sol nascer.
— Pensei em virar passarinho — confessou Flaquito. — Pesam menos os ossos.
Leandr sentou-se ao lado, ofegante da subida. Sem dizer palavra, abriu a mochila: tirou um cobertor, dois sanduíches e uma garrafa de leite quente.
— Se for voar — disse Leandr, depois de um longo gole —, leva comida. E leva eu. Porque passarinho sozinho não canta bem.
Flaquito riu — a primeira risada em meses. Comeu o sanduíche. E os dois desceram o morro devagar, o magro e o redondo, sombra e luz caminhando juntas.

