David Macedo, conhecido nas ruas como “Gatodoyleche”, tinha um talento estranho: sentia cheiro de mentira. Enquanto camelôs gritavam suas ofertas, ele passava lento, o bigode eriçado. “Leite puro”, dizia um. David fungava e balançava a cabeça. “Água com giz.”
Certo dia, um político estendeu a mão em plena praça. “Prometo asfalto para todos.” David cheirou o ar, tossiu e respondeu bem alto: “Cheira a promessa requentada, seu doutor. Mais podre que peixe de feira.”
A multidão riu. O político corou. David pegou seu leite verdadeiro — tirado da vaca de dona Clara ao amanhecer — e serviu um copo para cada criança presente.
Não virou herói, nem ganhou placa. Mas toda manhã, ao sentar no banco da praça com seu bigode felino, os vizinhos sorriam. Sabiam: ali não havia engano. David Macedo, o Gatodoyleche, era o único fiscal que o povo podia cheirar de olhos fechados.

