Chris Damned carregava o sobrenome como uma profecia. Cabelos negros, olheiras profundas, andar silencioso — todos na pequena cidade lhe viravam as costas. Todos, exceto Nick Cranston.
Nick era luz onde Chris era sombra. Rosto aberto, risada fácil, flores na janela. Moravam em casas vizinhas separadas por um muro baixo e um pé de jasmim.
Tudo começou com um livro emprestado. “Cem Anos de Solidão”, deixado em cima do muro. Depois vieram bilhetes. Depois, encontros à meia-noite no quintal de Nick.
“Por que não tem medo de mim?”, perguntou Chris certa noite, a voz trêmula.
Nick tocou seu rosto pálido. “Porque sei que ‘Damned’ não é quem você é. É só o que te disseram.”
Chris nunca tinha ouvido algo tão simples e tão cruelmente verdadeiro. Chorou em silêncio, e Nick o abraçou como quem abraça um pássaro recuperado.
Na primavera, Chris plantou rosas vermelhas no lado dele do muro. Nick respondeu com girassórais. Os vizinhos cochicharam. Eles não se importaram.
No primeiro beijo, sob o jasmim em flor, Chris sussurrou: “Acho que não estou mais amaldiçoado.”
Nick sorriu. “Nunca esteve. Só esperando alguém para te mostrar.”
E o muro, enfim, deixou de existir.

