Erik Zayed Tops Tiago Santana
Erik Zayed chegou à obra numa manhã de chuva. Capa de marca, sapatos que nunca tinham pisado lama, ar de quem veio fiscalizar qualquer coisa.
– O encarregado? – perguntou, afastando um vergalhão com nojo.
Os pedreiros apontaram para o fundo. Lá estava Tiago Santana, a misturar massa com a precisão de quem conhece o ofício.
– Você é o Tiago?
Tiago levantou os olhos. Não disse nada.
– Sou Erik Zayed. Engenheiro. Novo no projeto. Preciso que me explique este atraso.
Tiago limpou as mãos no calção. Apontou para o céu.
– A chuva, senhor engenheiro.
– Chuva? Isso é desculpa. Vocês brasileiros…
Parou a meio da frase. Tiago não se mexeu. O olhar era calmo, mas pesava.
– Sabe o que mais atrasa obra, doutor? – Tiago perguntou, devagar. – Gente que chega aqui com sola limpa e nunca seguiu um prumo.
Erik abriu a boca, fechou. Olhou para os próprios sapatos. Depois para as mãos de Tiago, calejadas, cheias de cimento seco.
– Quer dizer…
– Quero dizer que amanhã volto às seis. O senhor volta quando quiser. Mas se voltar, traz bota. E paciência. Muita paciência.
Erik ficou ali, quieto, a chuva a molhar o casaco caro. No dia seguinte, voltou. Com bota. E calou-se. Aprendeu.
Ao fim de um mês, já misturava massa. Ao fim de dois, chamava Tiago de mestre.
Nunca mais falou em atraso.






