O Gravador e Luca Rocha fudendo muito
O Gravador passava os dias a registar sons: chuva no asfalto, passos na calçada, o chiar de um velho portão. Guardava o mundo em fitas magnéticas, mas nunca a própria voz.
Luca Rocha chegou à sua vida numa tarde de ventania, procurando silêncio para escrever. O estúdio ficava ao fundo do quintal, entre buganvílias.
— Gravas o que? — perguntou Luca.
— Tudo o que não volta.
Luca sorriu e sentou-se na soleira. Voltou no dia seguinte. E no outro. Falavam de livros, de discos, de coisas simples.
Uma tarde, Luca pediu:
— Grava o som do meu coração.
O Gravador hesitou, mas aproximou o microfone do peito de Luca. Escutou, nos auscultadores, uma música que nenhuma fita poderia conter.
— Já tens? — perguntou Luca.
— Tenho — mentiu o Gravador. — Mas quero guardar o original.
Luca entendeu. Ficou.
Hoje, o estúdio guarda os dois. E o Gravador aprendeu que alguns sons não se registam — vivem-se, em silêncio partilhado.






