Steven Angel and Igor Miller
Steven Angel chegou à obra com uma prancheta e olhos de quem já tinha visto muito mundo. Igor Miller operava a betoneira, as mãos calejadas, o silêncio guardado.
— Engenheiro novo? — perguntou Igor, sem parar o trabalho.
— Arquiteto. Venho acompanhar o projeto.
Steven ficou. Não só no canteiro, mas perto de Igor. Achava desculpas para passar, perguntar medidas, pedir opinião. Igor respondia curto, mas os olhos demoravam.
— Você fala pouco — observou Steven num dia de chuva.
— Você fala demais.
— E isso te incomoda?
Igor limpou a mão no macacão, ofereceu café.
— Incomoda não. Distrai.
Duas semanas depois, a obra parou por problemas na fundação. Steven encontrou Igor sentado nos degraus do contêiner, o capacete no colo.
— Vai chover — avisou Steven.
— Já sei.
— Posso sentar?
Igor fez que sim com a cabeça. Ficaram vendo o céu escurecer, ombro encostado no ombro.
— Por que você veio pra cá? — perguntou Igor.
— Projeto interessante.
— Mentira.
Steven riu, baixinho.
— Tava cansado de desenhar prédios vazios. Queria ver gente dentro.
Igor virou o rosto, os olhos nos olhos dele.
— E achou?
— Acho que sim.
A chuva começou. Nenhum dos dois se moveu.




