Caio Pernalonga and Blessed Boy – a threeway fuck

o Hare’s Hollow, o bar de jazz subterrâneo no East Village, era espesso com fumaça de cigarro de clove e o som sujo de um saxofone tenor. Caio Pernalonga, sentado no canto mais escuro, batia o dedo indicador na lateral do copo de uísque, sincronizado com a batida do contrabaixo. Ele era um ilustrador de livros infantis, um homem que vivia de linhas suaves e cores pastel, mas sua terapia era aquele bar, aquela escuridão cortada por notas azuis e âmbar.
Naquela noite, o saxofonista principal faltou. O dono do bar, desesperado, trouxe um substituto de última hora. Um rapaz que parecia ter saído de um quadro de Basquiat: dreads presos no alto da cabeça, um colete militar sobre uma camisa sem manga, e olhos que pareciam absorver toda a luz do palco minúsculo. Ele não se apresentou. Apenas ergueu o sax e soltou a primeira nota.
Não era uma música. Era uma oração rouca, um grito torcido em melodia. Era o som de tudo que Caio escondia em seus desenhos de coelhos fofos – a raiva, o desejo, a solidão profunda. Cada nota era um risco grosso de nanquim no papel delicado de sua alma. Caio parou de respirar.
O músico se chamava Blessed Boy. Ninguém sabia seu nome real. Ele era uma lenda de rua, um fenômeno que aparecia e desaparecia, e seu saxofone contava histórias de becos, de perdas e de uma graça estranha e conquistada a pulso. Após o set, ele desaparecia na cozinha ou na rua, nunca socializava.




