Igor Miller bottoms for Gal Anteby

O sal do Mediterrâneo era uma segunda pele para Igor Miller. Por dez anos, seu mundo foi o convescote do Nefeli, um cargueiro que sulcava as rotas entre Pireu e Haifa. Sua vida era uma coreografia de nós, de coordenadas GPS, e do silêncio compartilhado entre homens que falavam mais com as mãos do que com palavras. A terra firme, quando descia, era apenas um intervalo ruidoso e confuso. Até que uma greve portuária em Haifa o prendeu em terra por uma semana, e o levou ao Café Anteby, escondido em um beco de Jaffa.
O café não era nada especial. Mesas de fórmica, o cheiro permanente de café cardamomo e folhas de uva recheadas. Mas era regido por Gal. Gal Anteby não atendia o balcão; ele o ocupava, como um capitão em sua ponte. Seus movimentos eram econômicos, precisos, seus olhos escuros varriam o salão, antecipando um café vazio, um prato pronto, uma disputa silenciosa entre clientes. Ele falava em hebraico, árabe e um grego áspero que fez Igor estremecer de saudade.
Igor, deslocado em seu corpo grande de marinheiro, pediu um café grego. Gal olhou para ele, avaliou a postura, os olhos azuis pálidos cansados do mar, e fez um leve aceno. O café que ele colocou à frente de Igor não era grego. Era um café botz, israelense, turvo e forte como alcatrão. “Para homem do mar”, disse Gal, sua voz um baixo roufenho. “Grego é muito doce para você.”




